A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) tinha informações sobre problemas em peças utilizadas em voos da Voepass desde 2020 e ignorou pedidos para suspender a operação de aeronaves suspeitas de irregularidades. Além disso, o então inspetor da agência que apresentou os alertas foi demitido. A Voepass é a empresa responsável pelo avião que caiu em Vinhedo, em São Paulo, e deixou 62 pessoas mortas em agosto de 2024. As informações são do Estadão. A Anac não comentou o caso.
Segundo o jornal, os alertas e pedidos de suspensão foram apresentados por um então funcionário que era servidor da Anac desde 2009. Ele foi exonerado em 2024 durante processo disciplinar (PAD). Entre as justificativas de abertura do PAD, constava um e-mail enviado por ele sobre indícios de que peças de uma aeronave acidentada em 2016 eram reaproveitadas pelas empresas que formaram a Voepass.
“Várias peças da aeronave acidentada ainda se encontram no estoque da Passaredo, em Ribeirão Preto (SP), e outras foram instaladas em aeronaves operadas por Passaredo e Map ou redistribuídas para locadores dos EUA e da Europa. Essa ameaça à segurança da aviação também afeta cidadãos dos Estados Unidos e da União Europeia que viajam em voos oferecidos pela Passaredo e pela Map, disponibilizados por meio de acordos e outras alianças comerciais entre companhias”, escreveu, em e-mail enviado em 2022 para agências de aviação civil do exterior.
No processo disciplinar, a Anac avaliou que o servidor não tinha autonomia para fazer o comunicado e que se precipitou. Segundo documentos internos, após apuração do caso, ficou comprovado que não havia motivo para classificar as peças como suspeitas.
O funcionário também foi apontado como insubordinado, que se recusava a trabalhar em equipe e que dava encaminhamento a procedimentos que não lhe cabiam. Além disso, a agência apurou alegações de que ele tinha tratamento hostil com colegas.
Em defesa, ele afirmou que seus chefes cometeram difamação, injúria, prevaricação, assédio moral e fraude processual. Segundo ele, o motivo do processo era por ele insistir em apontar irregularidades relacionadas à companhia aérea.
O então inspetor havia liderado em julho de 2020 um processo de auditoria na MAP Linhas Aéreas, que compartilhava operações com a Passaredo — foi a fusão das duas empresas que gerou a Voepass. Nisso, como aponta o Estadão, que teve acesso a documentos, a fiscalização constatou que a MAP não estava cumprindo a obrigação de verificar se componentes das aeronaves estavam aeronavegáveis, ou seja, com condições técnicas adequadas e funcionando com segurança.
Em relatório de novembro de 2020, ele fez duas recomendações: suspender a MAP e impedir o intercâmbio com a Passaredo. Em reunião na Anac sobre a questão, foi decidido que não havia elementos suficientes para aplicar as suspensões.
Mais um relatório foi criado em janeiro de 2021, onde foram apontados pelo então funcionário indícios de irregularidades na manutenção de motores na MAP e equipamentos “escondidos” nas dependências da empresa, mantidos fora do controle de estoques.
Foram feitos pedidos de adequação à MAP/Voepass por meio de processos de fiscalização. Porém, uma ordem de suspensão à empresa só foi dada em março de 2025, após o acidente que deixou 62 pessoas mortas em 2024. A cassação definitiva da Voepass se deu em junho de 2025.
Em nota, a Voepass afirma que a queda do voo 2283 foi “o episódio mais difícil da história da Voepass” e disse que, desde o acidente, permaneceu solidária às famílias das vítimas. A empresa destacou que, em mais de 30 anos de operação na aviação brasileira, nunca havia enfrentado uma tragédia semelhante e afirmou que sempre adotou procedimentos voltados à segurança operacional, capacitação e orientação das tripulações.
Fonte: Terra




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