Em artigo publicado nesta quarta-feira, o militante do PT Rondônia Edson Silveira chamou atenção ao defender que o senador Confúcio Moura deverá receber boa parte do segundo voto do eleitorado petista. O texto, porém, não faz qualquer menção ao candidato ao Senado Ayres Mota (PV), indicado por Expedito Netto na Federação PT/PV/PCdoB.
A ausência de referência ao nome de Ayres Mota pode ampliar os questionamentos sobre a unidade da federação, já que o próprio militante petista destaca Confúcio Moura como opção natural para parte dos eleitores do PT, mesmo havendo um candidato oficialmente lançado pela aliança.
Nos bastidores, a manifestação tende a alimentar especulações sobre o nível de engajamento de setores do PT na campanha de Ayres Mota e pode aumentar o desgaste interno entre as legendas que compõem a Federação PT/PV/PCdoB.
Essa versão mantém um tom forte, mas evita afirmar como fato que exista um conflito interno sem evidências.
Leia o artigo na íntegra:
Por Edson Silveira
Advogado, administrador, professor e militante do PT/RO
A política tem uma regra tão antiga quanto a própria democracia: acordo só existe quando os dois lados cumprem aquilo que foi combinado.
Por isso, causa estranheza ler análises que procuram atribuir exclusivamente ao Partido dos Trabalhadores a responsabilidade pelo fracasso das negociações envolvendo a composição entre PT e MDB em Rondônia.
Essa narrativa simplesmente ignora um detalhe fundamental: acordos não são de mão única.
Segundo a compreensão deste articulista sobre as negociações que ocorreram, o entendimento político discutido era bastante claro. O MDB retiraria a candidatura de Pedro Abib ao Governo do Estado e integraria uma chapa unificada, indicando o candidato a vice-governador de Expedito Netto. Em contrapartida, o PT abriria mão de lançar candidatura própria ao Senado, inclusive retirando da disputa um nome competitivo e legitimamente construído dentro do partido: Luciana Oliveira.
Não era uma concessão pequena.
O PT estava disposto a sacrificar um projeto político próprio em favor da unidade do campo democrático.
Mas havia uma condição elementar: o MDB também precisava cumprir sua parte.
Se Pedro Abib permaneceu candidato ao Governo, a principal premissa da negociação deixou de existir. E, quando isso acontece, não há acordo a ser descumprido. Há apenas uma negociação que não produziu consenso.
É curioso observar que alguns analistas parecem exigir do PT uma fidelidade unilateral. Esperava-se que o partido renunciasse à sua candidatura ao Senado enquanto o MDB preservava integralmente seu projeto eleitoral.
Isso não é acordo.
Isso é rendição.
E o PT nunca foi, nem será, um partido de abrir mão de sua autonomia política sem que haja reciprocidade.
Quem conhece a história do Partido dos Trabalhadores sabe que, quando firma compromissos políticos, procura honrá-los. Mas também sabe que respeito se conquista na reciprocidade. Nenhuma legenda séria aceita cumprir obrigações que deixaram de existir porque a outra parte resolveu seguir outro caminho.
É igualmente importante deixar uma coisa muito clara.
Nenhum desses acontecimentos diminui a importância política do senador Confúcio Moura.
Muito pelo contrário.
Confúcio consolidou-se como um dos mais importantes parceiros do governo do presidente Lula em Rondônia. Seu mandato contribuiu para viabilizar investimentos federais, fortalecer programas públicos e manter um canal permanente de diálogo entre o Estado e o Governo Federal.
Esse reconhecimento permanece.
A relação política construída ao longo dos anos não pode ser reduzida a uma negociação eleitoral que não chegou ao seu desfecho.
Aliás, se existe algo que caracteriza a militância petista é a capacidade de separar divergências conjunturais das alianças estratégicas.
Por isso, não seria surpresa alguma que Confúcio Moura venha a receber o segundo voto de uma parcela significativa do eleitorado petista. O respeito político construído ao longo dos anos não desaparece porque uma composição eleitoral deixou de prosperar.
O que precisa ser rejeitado é a tentativa de transformar o PT em bode expiatório de uma negociação que dependia de duas vontades políticas.
Quem deseja contar essa história precisa contá-la inteira.
O PT demonstrou disposição para construir uma ampla frente política. Aceitou discutir concessões relevantes. Estava preparado para abrir mão de uma candidatura própria ao Senado.
O que não poderia fazer era fingir que existia um acordo quando uma de suas condições centrais deixou de ser cumprida.
Na política, lealdade não se mede apenas pelo que um partido está disposto a renunciar.
Mede-se, sobretudo, pela capacidade de cumprir aquilo que promete.
E isso vale para todos.
Sem exceção.

