A China tenta se consolidar como peça central da diplomacia global em meio às guerras na Ucrânia e no Irã ao apresentar a visita do presidente da Rússia, Vladimir Putin, a Pequim, nesta quarta-feira (20), como exemplo de que o país está se tornando um “ponto focal da diplomacia mundial”.
A expressão foi usada pelo jornal Global Times, ligado ao governo chinês, para reforçar a ideia de que a China, sob a liderança de Xi Jinping, busca ocupar posição de equilíbrio estratégico no cenário internacional ao receber, em poucos dias, tanto o presidente russo quanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Se na semana passada Xi tentou demonstrar estabilidade na delicada relação com os americanos, agora, ao lado de Putin, o objetivo é destacar o peso crescente de Pequim em uma ordem internacional considerada fragmentada pelos chineses.
Já Putin busca reafirmar a forte parceria entre Moscou e Pequim.
Segundo as chancelarias dos dois países, o encontro celebrou os 25 anos do Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amistosa, além dos 30 anos das relações estratégicas entre Rússia e China. Também estiveram na pauta temas como energia, economia e defesa.
Como forma de se contrapor à ordem liderada pelos Estados Unidos e reforçar o papel chinês como mediador diplomático, os dois líderes divulgaram uma declaração conjunta em defesa da multipolaridade e de novos modelos de relações internacionais.
Durante a cerimônia de assinatura dos acordos, Xi Jinping afirmou que China e Rússia são contra “qualquer intimidação unilateral e ações que tentem reverter a história”.
Putin, por sua vez, declarou que os dois países exercem um papel estabilizador nas relações internacionais.
Para Chong Ja Ian, professor de ciência política da Universidade Nacional de Singapura, Putin quer fortalecer a relação estratégica com a China e evitar sair enfraquecido após a recente visita de Trump a Pequim.
Já os chineses tentam transmitir a imagem de uma potência central da política global.
“A impressão que Pequim e Xi provavelmente querem transmitir é a de que a República Popular da China se tornou o epicentro da política mundial. Se isso é realmente verdade, é outra história”, afirmou o especialista.
Ele ressalta que Pequim ainda enfrenta dificuldades para alcançar os resultados desejados em conflitos e crises internacionais, como no Oriente Médio, na guerra da Ucrânia e na Venezuela.
Na avaliação de analistas, Moscou é hoje quem mais depende da aliança.
Enfraquecida pelas sanções ocidentais impostas após a invasão da Ucrânia e pressionada pelos altos custos da guerra, a Rússia passou a depender fortemente da parceria com poucos aliados, especialmente a China.
Apesar disso, Putin chega ao encontro em posição um pouco mais favorável do que em reuniões anteriores. O conflito no Oriente Médio elevou a dependência chinesa do petróleo russo após o fechamento do Estreito de Ormuz, obrigando Pequim a diversificar as fontes de abastecimento.
Dados do Kremlin indicam que as exportações de petróleo russo para a China cresceram mais de um terço no primeiro trimestre de 2026.
Mesmo assim, Moscou continua altamente dependente da China para a compra de bens manufaturados, como carros, eletrônicos e maquinário.
“As circunstâncias no Oriente Médio fizeram da Rússia uma fonte ainda mais importante de petróleo e gás para a China. Isso dá a Moscou maior poder de negociação relativo, embora a Rússia continue mais dependente de Pequim do que o contrário”, explicou Chong Ja Ian.
Segundo o Kremlin, um dos principais temas do encontro foi o projeto do gasoduto Poder da Sibéria 2.
Embora importante para a China, o projeto é visto como uma alternativa vital para Moscou diante da queda nas exportações de gás para a Europa.
O gasoduto, travado por divergências sobre preços, poderá transportar cerca de 50 bilhões de metros cúbicos de gás por ano para a China e é considerado estratégico para Pequim em meio aos riscos nas rotas marítimas provocados pela guerra no Oriente Médio.
O Kremlin informou que os líderes fecharam um importante acordo energético, mas os detalhes não foram divulgados.
Fonte: Folhapress

