“Achei que não iria para frente”, diz garçonete do caso Wassef

Desempregada, a ex-funcionária da Pizzaria se sente aliviada ao saber que a Justiça tornou réu o advogado do presidente Jair Bolsonaro. Em entrevista ao Correio, ela reafirma a sequência de ofensas e humilhações que teriam sido cometidas pelo agressor

(crédito: Arquivo Pessoal)
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Ainda abalada com a situação de racismo que sofreu enquanto trabalhava, Danielle da Cruz Oliveira, 19 anos, sente-se aliviada com a decisão da Justiça de aceitar a denúncia do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) contra Frederick Wassef, advogado da família Bolsonaro. Em outubro e novembro de 2020, a jovem foi humilhada e ofendida pelo acusado na pizzaria de um shopping do Lago Sul. Wassef tornou-se réu na Justiça e responderá pelos crimes de injúria racial, vias de fato e racismo.




Desempregada, Danielle mora sozinha em São Sebastião. Em entrevista concedida ao Correio, na última sexta-feira (18/2), a jovem deu detalhes do caso e contou como está vivendo após os episódios de humilhação que passou. “Por um momento, achei que o caso não iria para a frente, porque não tinha visto mais notícias e ninguém comentava mais. Quando soube, fiquei feliz por saber que eu não estava sozinha nessa luta e vi que levaram a situação a sério”, desabafou.

A primeira ofensa ocorreu em outubro de 2020. Danielle trabalhava como garçonete na pizzaria. A jovem conta que, enquanto atendia Wassef, foi puxada pelo braço pelo advogado. “Ele falou que não queria ser atendido por mim, que eu era negra e tinha cara de sonsa”, relata. Danielle conta que havia passado por situações semelhantes, mas não de maneira tão agressiva e ofensiva. “Eu estava apenas fazendo o meu trabalho e me perguntei por que ainda existiam pessoas que julgavam a gente pela aparência. Fiquei triste a abalada”, afirma.

“Você é uma macaca”

Na primeira ocasião, a jovem não reconheceu que o cliente era Wassef, personagem conhecido na política nacional. Danielle só soube que se tratava do advogado da família Bolsonaro após ele comparecer novamente na pizzaria, em novembro. “Quando o vi, mandei minha amiga atender e permaneci no balcão.”

Enquanto estava no balcão, conta Danielle, o advogado foi em direção a ela e disse que a pizza estava “uma merda”. Em seguida, perguntou se a funcionária havia comido a refeição. Insatisfeito com a resposta negativa, o acusado teria respondido: “Você é uma macaca. Você come o que te derem”. “Dessa vez, eu retruquei, e disse que ele não era melhor do que ninguém por ser branco”, afirmou.




Danielle relata que sentiu medo de denunciá-lo, justamente pelo fato de Wassef ser conhecido e defender a família do presidente da República. “Quem me incentivou foi o meu ex-gerente. Ele ouviu as ofensas e logo disse que era caso de polícia”, relata Danielle.

Por meses, a jovem evitou sair de casa por medo. Estudante do ensino médio, ela chegou a receber várias ligações da escola por não estar fazendo as atividades. “Minha mãe me ajudou muito nesse período. Ela resolvia os problemas. Cheguei a bloquear todas as minhas redes sociais”, lembra.

Indenização

Na denúncia enviada pelo MPDFT à Justiça e obtida pelo Correio, a promotora Mariana Silva Nunes, do Núcleo de Enfrentamento à Discriminação (NDH), pede que Wassef indenize a vítima em R$ 20 mil, para reparação de prejuízos pessoais, e em R$ 30 mil, a título de danos morais coletivos. Essa segunda quantia será revertida a instituição que atua no combate à discriminação racial, a ser indicada pelo Ministério Público.

A promotora exige, ainda, que o acusado participe do curso Conscientização para Igualdade Racial, ministrado pelo MP em parceria com a Universidade de Brasília (UnB). “Diante do acima exposto, notadamente em razão da gravidade em concreto do presente caso, em que a vítima, de apenas 18 anos, foi humilhada e ofendida pelo denunciado de forma reiterada, o Núcleo de Enfrentamento à Discriminação do MPDFT manifesta-se no sentido de que os instrumentos de justiça consensual não são necessários e suficientes para reprovação e prevenção dos crime”, diz trecho da denúncia.




Na quinta-feira (17/2), o juiz Omar Dantas Lima, da 3ª Vara Criminal de Brasília, recebeu a acusação. A defesa do advogado terá 10 dias para se pronunciar.

Fraude processual

Ao Correio, Wassef negou as acusações, afirmou que houve “fraude processual” e disse tratar-se de caso de “denunciação caluniosa”. “Jamais proferi ofensa a quem quer que seja. Isso não existe. Querem que o falso depoimento seja transformado em um escândalo para me destruir. Sou vítima de denunciação caluniosa. A polícia nunca me ouviu. Ignorou três petições em que pedi para ser ouvido, para mostrar que sou vítima de crime. Em vez de oferecer denúncia, devolveram o inquérito. A polícia não fez nada e engavetou meu inquérito. Houve, ainda, troca de promotora, que ofereceu denúncia sem existir nada nos autos”, afirmou.

O réu completou: “O objetivo é fazer a denúncia para vazar para a imprensa e massacrar a imagem de Frederick Wassef. A denúncia foi oferecida ontem (quarta-feira), recebida hoje (quinta-feira) no fim da tarde. Existe ocorrência em que denuncio crime de denunciação caluniosa. A menina não é negra. A promotora Mariana (Silva Nunes) simplesmente passou por cima do próprio MP e ofereceu a denúncia”.

Consultada pela reportagem, o advogado do acusado, Cleber Lopes, também se posicionou. “A defesa de Frederick Wassef está perplexa com a denúncia oferecida pelo Ministério Público, pois havia diligências pendentes no inquérito, que eram, como de fato são, absolutamente relevantes para o esclarecimento da verdade, as quais mostrariam sua inocência (do réu). Isso viola a garantia constitucional de defesa, pois o inquérito não pode ser apenas um instrumento que busque incriminar alguém. Iremos aos tribunais para resgatar a Constituição”, enfatizou, em nota.


Fonte: Correio Brasiliense

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