Com números de coronavírus em queda, EUA vislumbram ponto de virada na crise sanitária

A queda no número diários de testes, que retraiu 11% entre 18 e 29 de janeiro, segundo o New York Times, também pode acabar contribuindo, mas a taxa de positividade desses exames acompanhou a baixa, indicando que a contenção da propagação é real, afirma o jornal americano

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País líder em mortes e infecções por Covid-19, os EUA parecem vislumbrar um ponto de virada na pandemia do coronavírus. Após um pico de hospitalizações, casos e mortes no início deste ano, os números dão sinais de que podem retroceder.

Previsões publicadas pelo CDC (Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA, na sigla em inglês), na última quinta-feira (28), mostram tendência de queda para os principais índices da Covid-19 no país: casos, hospitalizações e mortes.

O registro de novos casos por semana, embora elevado, já apresentou uma redução de 38,6% nas últimas três semanas.

As infecções atingiram seu pico de 1,7 milhão no período entre 3 e 9 de janeiro, o mais alto patamar desde que o primeiro caso foi confirmado nos EUA -se comparado ao número do fim do verão no Hemisfério Norte (inverno no Brasil), o aumento foi de 602%.

O pico veio depois de dois saltos importantes nos índices, um no feriado de Ação de Graças nos EUA, em 26 de novembro, e outro no Natal. No primeiro, 14 dias após a celebração, os casos subiram 32,2% no acumulado entre 6 e 12 de dezembro. Já duas semanas após o segundo, houve mais um acréscimo, de 29%, no somatório de registros justamente no período entre 3 e 9 de janeiro.

A tendência apresentada pelo CDC agora, porém, é a de uma queda considerável. Com base em uma previsão elaborada a partir do estudo de 25 grupos modelo, estima-se uma diminuição de 38,2% entre o pico do início do mês e o acumulado da semana entre 14 e 20 de fevereiro.

A estimativa já dá sinais de se confirmar. O somatório de casos entre 24 e 30 de janeiro ficou em 1,04 milhão, abaixo da previsão de 1,22 milhão, publicada antes do encerramento do período. Se confirmada a tendência, o país volta ao mesmo patamar do começo de novembro, quando o início das temperaturas baixas colaborou com o recente surto, já que as pessoas passaram a se reunir em locais fechados.

Especialistas avaliam que diferentes fatores contribuem para a diminuição. Um deles é o término do período de alta de infecções devido às festas de fim de ano. “O período de viagens do qual o vírus se aproveitou está quase no fim”, explicou à agência de notícias AFP Amesh Adalja, professor afiliado do departamento de Segurança Sanitária da Universidade Johns Hopkins.

A queda no número diários de testes, que retraiu 11% entre 18 e 29 de janeiro, segundo o New York Times, também pode acabar contribuindo, mas a taxa de positividade desses exames acompanhou a baixa, indicando que a contenção da propagação é real, afirma o jornal americano.

Há ainda a questão do comportamento. Especialista em doenças infecciosas da Universidade da Flórida, Natalie Dean afirmou também à AFP que a população “entra em ação” quando o número de infecções aumenta em sua região. A prevenção, como o uso de máscaras e o distanciamento social, também tem um papel importante.

A professora assistente do Departamento de Bioestatísticas da instituição citou ainda os exemplos do próprio estado da Flórida e também do Texas e do Arizona como três lugares que não impuseram duras medidas restritivas para conter a propagação do vírus. Nesses locais, a transmissão só diminuiu após a adoção de “medidas políticas ou pequenas mudanças de atitude”.

Já Brandon Brown, especialista em saúde pública da Universidade da Califórnia, aponta “a diminuição da desinformação” sobre a pandemia como outro motivo. Para ele, “é difícil negar a realidade dos mais de 400 mil óbitos” no país. Mais de 440 mil pessoas já morreram de Covid-19 nos EUA, que soma 2,2 milhões de infectados.

Se por um lado a população passa a ser mais cautelosa quando há um aumento nas infecções, o contrário, entretanto, ocorre quando os registros diminuem, alertam os especialistas.

O fato é que o número de hospitalizações e de mortes acompanha a queda, apesar de o pico deste último ser mais recente -esses registros normalmente seguem a mesma tendência dos casos, mas com um certo atraso, já que o processo para confirmar uma fatalidade por coronavírus é mais demorado.

Embora ainda elevado, mas longe do pico de 6.489 vítimas de 15 de abril, houve uma queda de 5,9% na quantidade de mortes nas duas últimas semanas. O ápice do acumulado por semana foi alcançado no período entre 10 e 16 de janeiro, que somou 23,4 mil mortes.

A previsão do CDC aponta que os números seguirão uma tendência de baixa, podendo chegar a 18.790 novas mortes no acumulado entre 14 e 20 de fevereiro, ou 19,7% desde o pico em meados de janeiro, o mesmo patamar que na semana anterior ao Natal.

A estimativa, no entanto, ficou levemente abaixo do somatório entre 24 e 30 de janeiro. Foram 22.025 mortes no período, contra os 21.075 previstos, o que significa também um aumento de 2,3% em relação ao período anterior, entre 17 e 23 de janeiro.

Já a quantidade de novas hospitalizações viu uma queda pela segunda semana seguida, tendo diminuído 10% no período entre 20 e 27 de janeiro, segundo análise da plataforma Covid Tracking Project (Projeto de Acompanhamento da Covid).

A melhora nos números, segundo a iniciativa, reflete a diminuição das internações em quase todos estados -o oposto do que ocorreu em novembro, quando o índice subia em quase todas as regiões ao mesmo tempo. Apenas Vermont apresentou um aumento no período, ainda assim de apenas 2%.

É a primeira semana desde 5 de novembro que nenhum estado bateu recordes de pessoas internadas.

O país viu o pico desses números em 6 janeiro, com 132,4 mil pessoas em hospitais. Até sexta, a queda foi de 23,7%, de acordo com o Covid Tracking Project. Segundo previsão do CDC, as novas internações devem cair 32,2% até 22 de fevereiro.

Segundo o professor Adalja afirmou à AFP, a campanha de vacinação em lares de idosos provavelmente contribuiu para a queda nas hospitalizações e mortes.

Os EUA começaram a aplicar os imunizantes em 14 de dezembro, dia em que registraram 206.033 casos, 110.573 internações e 1.766 mortes, números que seguiram crescendo. Até este sábado (30), 24 milhões de pessoas já haviam recebido ao menos a primeira dose da vacina no país.

O número ainda é baixo e corresponde a cerca de 7,2% da população americana -índice longe dos 85% necessários para alcançar a imunidade de rebanho.

A campanha nos EUA sofreu críticas por estar caminhando a passos lentos, e o presidente Joe Biden corre contra o tempo para cumprir sua promessa de campanha de aplicar 100 milhões de vacinas em seus primeiros cem dias no cargo.

Apesar de os números parecerem apresentar boas novas, o democrata afirmou, no dia seguinte à sua posse, que a pandemia estava longe de acabar no país e que o total de americanos mortos pela doença deve chegar a 500 mil em fevereiro.

Diferentes preocupações ainda cercam a questão do coronavírus no país. Jeffrey Seman, epidemiologista da Universidade de Columbia, disse à AFP que teme que a adoção de medidas preventivas caia na primavera (outono no Brasil), quando o deslocamento da população deve aumentar novamente.

Também há as mutações do vírus, já encontradas no Brasil, na África do Sul e no Reino Unido e que levaram ao endurecimento de restrições a deslocamentos de pessoas desses países. Pouco se sabe se as vacinas já existentes, desenvolvidas em tempo recorde, serão eficazes contra essas variantes, mais infecciosas.


Fonte: FOLHAPRESS

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