Jovem beijada à força no jogo do Atlético conta que homem chorou implorando para não ser denunciado

Vítima foi agarrada pelo pescoço no momento do assédio (Bruno Sousa/Atlético)
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A jovem de 22 anos que foi vítima de assédio durante o jogo do Atlético contra o Fluminense, nesse domingo (28), conta que foi agarrada pelo pescoço pelo homem que a beijou à força. O autor, que é advogado, chegou a chorar, pedindo para não ser denunciado à polícia, conforme relatou a jovem em conversa com o BHAZ.

A vítima, que terá a identidade preservada, relata que a importunação sexual não aconteceu no “calor da emoção” depois do segundo gol do Atlético, e sim alguns minutos depois da comemoração, quando a torcida já não estava tão agitada.




Junto de um grupo de amigos, ela estava subindo a escada da arquibancada do setor laranja inferior do Mineirão quando o homem de 40 anos a assediou.

“Nós estávamos subindo para encontrar outros amigos, quando eu encontrei o pai de uma amiga. Parei para conversar com ele por algum tempo, e quando me virei, um desconhecido deu um gancho com o braço no meu pescoço e me beijou, gritando ‘foi gol do Galo’”, conta ela ao BHAZ.

Logo em seguida, a jovem foi amparada pelos amigos, que se dividiram para levá-la a um lugar mais vazio e para chamar as autoridades.

Uma equipe da Polícia Militar estava no setor e rapidamente agiu para encontrar o autor, que estava no mesmo lugar onde cometeu o crime de importunação sexual e foi preso em flagrante.




Denúncia

O homem de 40 anos e a vítima foram conduzidos ao posto policial instalado no Mineirão, onde somente a jovem prestou depoimento e registrou a ocorrência. Ela ainda conta que foi atendida por uma soldado mulher, que estava lá especialmente para atender casos de violência contra a mulher.

De lá, a vítima, uma testemunha e o autor foram conduzidos à Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher. Mas, antes de deixar o estádio, o homem pediu que a jovem não formalizasse a denúncia.

“Ele implorou, ficou chorando e pedindo para eu não prestar queixa. Esse foi o único momento em que eu o vi depois do assédio, toda vez que passávamos pelo mesmo lugar algum policial me afastava para que eu não precisasse cruzar com ele”, conta a estudante.

Na delegacia, ela e a testemunha, um amigo que estava no estádio, prestaram depoimento e registraram a ocorrência. Já o autor levou cinco advogados para o local, que teriam tentado conversar com o amigo da vítima.




“O autor não estava no local, mas os advogados ficaram no mesmo ambiente que eu. Eles ficaram nos encarando, e a situação estava tão desconfortável que o sargento que estava na sala pediu que eles se retirassem”, relata.

Desdobramentos

De acordo com a Políca Civil, depois de ser detido, o autor foi liberado “por falta de elementos legais para ratificar a prisão em flagrante”.

Agora, a vítima pode entrar com um processo contra o homem por danos morais e por importunação sexual. “Não sei se vou processar, porque foi tão desgastante ficar repetindo o depoimento tantas vezes e esperar a demora do registro da ocorrência. A situação é muito desanimadora”, admite.

A estudante de fisioterapia ainda conta que costuma ir aos jogos do Atlético com frequência e que esta foi a primeira vez que passou por uma situação de assédio. Ainda segundo a jovem, nem o clube nem o Mineirão entraram em contato após o ocorrido.

Investigação

Por meio de nota enviada ao BHAZ (leia abaixo na íntegra), o Mineirão disse que acompanha “de perto dois novos casos de importunação sexual, ocorridos na partida entre Atlético e Fluminense, nesse domingo (28), pelo Campeonato Brasileiro”.




O estádio disse que “repudia qualquer ato de violência de gênero e vem trabalhando em ações para orientar os torcedores”.

Uma das ações é a campanha “Todos contra a Importunação Sexual”, lançada no dia 18 de outubro e “promovida pelo Mineirão, com apoio dos clubes e de órgãos públicos, incentiva a denúncia de tais atos”.

Mineirão vira palco de racismo e assédio

Esta não é a primeira denúncia envolvendo importunação sexual no Mineirão após a volta da torcida ao estádio. Além deste crime, nas últimas semanas, o noticiário também vem sendo marcado também por casos de racismo e injúria racial.

Também no jogo entre Atlético x Corinthians, uma mulher que trabalhava no bar do Mineirão denunciou ter sido vítima de ofensas racistas e de agressão por parte de um torcedor. Bruna Araújo Campos, 37, usou as redes sociais para contar que foi chamada de “lixo” e “macaca” pelo atleticano.

A torcedora Débora Caroline Rodrigues Cotta, 25, por sua vez, foi agarrada e beijada à força por um homem durante o mesmo jogo. Ao BHAZ, ela contou que não teve apoio da equipe do estádio e de ninguém que estava por perto.

Em pleno Dia da Consciência Negra, o publicitário Carlos Miguel Lopes, 25, foi vítima de injúria racial juntamente com o irmão Carlos Eduardo Fernandes, 22. Tudo aconteceu no sábado (20), na partida entre Atlético e Juventude. Eles foram chamados de “bando de macacos” por um torcedor.




“Aquilo acabou com meu dia e com a minha semana. Isso mexe muito com o psicológico e o pior é saber que não fomos os primeiros e nem seremos os últimos a passar por tal situação”, disse ao BHAZ.

Importunação sexual

O crime de importunação sexual, que se tornou lei em 2018, é caracterizado pela realização de ato libidinoso na presença de alguém e sem seu consentimento.

O caso mais comum é o assédio sofrido por mulheres em meios de transporte coletivo, como ônibus e metrô. Antes, isso era considerado apenas uma contravenção penal, com pena de multa. Agora, quem praticar o crime poderá pegar de um a 5 anos de prisão.

Nota do Mineirão na íntegra

“O Mineirão teve conhecimento e acompanhou de perto dois novos casos de importunação sexual, ocorridos na partida entre Atlético e Fluminense, neste domingo (28), pelo Campeonato Brasileiro. O estádio repudia qualquer ato de violência de gênero e vem trabalhando em ações para orientar os torcedores. A campanha “Todos contra a Importunação Sexual”, lançada em 18 de outubro e promovida pelo Mineirão, com apoio dos clubes e de órgãos públicos, incentiva a denúncia de tais atos.




Entre as ações está a criação de um canal de denúncias por Whatsapp, com o intuito de agilizar o atendimento e colaborar com apuração dos fatos junto aos órgãos de segurança. O número para denúncia é o (31) 98369 9688, que pode ser acessados por meio dos QR Codes espalhados por todo o estádio.

O trabalho de atendimento, acolhimento, encaminhamento e acompanhamento das vítimas para os casos do último domingo foi feito pela equipe do estádio. O Mineirão reitera ainda que os vigilantes estão orientados a agir para casos de injúria racial, importunação sexual ou qualquer tipo de discriminação.

Quando casos relacionados a essas práticas acontecem no estádio, as ações visam minimizar todos os impactos causados nas vítimas e direcioná-las da maneira mais adequada. O objetivo é melhorar cada vez mais essas ações num trabalho interdisciplinar com os diversos atores da sociedade, cada qual com a sua competência.

Os casos do último domingo estão sendo investigados pela Polícia Civil. O Mineirão está à disposição das autoridades policiais para colaborar com os trabalhos”.


Fonte: BHAZ

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