Psiquiatra explica relação entre o aumento do consumo de álcool e a pandemia

Entrevista com Helena Moura, preceptora da residência de psiquiatria do Hospital de Base

crédito: Ed Alves/CB/D.A Press
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Em todo o mundo, o alcoolismo mata três milhões de pessoas, número que representa uma parcela de 5,3% dos falecimentos globais. Além disso, o uso nocivo da substância é um fator causal para mais de 200 doenças e lesões, aponta a Organização Mundial da Saúde (OMS). No CB.Saúde — uma parceria do Correio com a TV Brasília — do dia nacional de combate ao alcoolismo (18/2), a psiquiatra Helena Moura, especialista em dependência química e preceptora da residência de psiquiatria do Hospital de Base, explicou a relação entre o consumo de álcool e a pandemia, em entrevista à jornalista Carmen Souza.

De acordo com Helena, o perfil de pessoas afetadas pela dependência do álcool tem mudado, e o sistema de saúde público não está preparado para lidar com as novas implicações. “O que tem chamado atenção é que há uma mudança de padrão das pessoas que estão bebendo, e vários entrevistados desse levantamento eram mulheres (…). Tem chegado casos no consultório de pessoas mais velhas que não bebiam e começaram a beber na terceira idade devido à pandemia”, exemplifica. Confira trechos da entrevista:

De que forma a ingestão de álcool e a covid-19 estão relacionadas?

Desde o início da pandemia, nós temos tentado fazer uma série de alertas, porque o consumo de álcool pode ter relação com a pandemia de várias formas. As pessoas têm mais dificuldade de aderir às estratégias de prevenção sobre os efeitos do álcool, que deixa o organismo mais vulnerável para infecções e para desenvolver complicações da covid-19. Fora todas as dificuldades que nós temos no momento, as equipes de saúde estão muito voltadas para o tratamento da covid, e isso também implica na dificuldade dessas pessoas terem acesso ao tratamento contra o alcoolismo. Além disso, há questões da própria saúde física. É muito comum ver carência nutricional em pessoas que sofrem com alcoolismo. Por si só, isso pode comprometer a defesa do organismo, mas naquela pessoa que não chega ser alcoolista, dependendo de como ela bebe, pode haver o comprometimento do sistema imunológico, ainda que de forma momentânea. O consumo em binge, por exemplo, é aquele consumo de cinco ou mais doses para homens e quatro ou mais doses para mulheres, em um período de duas horas. Esse padrão de consumo ocasiona uma queda no sistema imunológico, e estamos vendo muitas festas clandestinas. A pessoa está em uma situação que ela está bebendo, se abraçando, esquecendo de colocar a máscara e compartilhando copo e garrafa.

Como o excesso de ingestão de álcool, ao longo de um ano de pandemia, tem chegado aos consultórios?

Em primeiro lugar, é interessante observar uma mudança no padrão de consumo de álcool. Ainda no início da pandemia, a Fiocruz mostrou que houve um aumento por volta de 18% e 25% no consumo de bebida alcoólica. Contudo, há uma parte da população que parou de beber, em torno de 30%. O que as pessoas têm alegado, dentro de pesquisas do Brasil e de outros países, é que o aumento do consumo está relacionado ao fato de elas ficarem entediadas, à falta de opção de lazer, ao estresse, à sobrecarga e à solidão. Na nossa pesquisa, identificamos que o consumo de álcool está relacionado, também, a sintomas de ansiedade e depressão, o que é algo que a gente tem de ficar bem preocupado, porque essa mistura de depressão e ansiedade com álcool é perigosa.

A saúde mental é um ponto chave no enfrentamento da pandemia?

Temos de pensar a longo prazo, e analisar se essas pessoas que estão bebendo hoje têm critérios para um diagnóstico de alcoolismo. Talvez ainda não tenham, mas se for pensar que essa situação está se prolongando muito, e as pessoas continuam sob estresse crônico, temos de ficar atentos. O que tem chamado atenção é que há uma mudança de padrão das pessoas que estão bebendo, e vários entrevistados desse levantamento eram mulheres. Ou seja, são mulheres dizendo que estão bebendo mais. Em termos de faixa etária, há casos no consultório de pessoas mais velhas que não bebiam e começaram a beber na terceira idade devido à pandemia. Com essa mudança de perfil, o serviço público não está preparado para atender idosos e mulheres. Quando eu penso em alcoolismo, o fato de unir homem e mulher, eu posso juntar vítima e agressor. É muito comum homens com problemas de alcoolismo serem agressores, e as mulheres que desenvolveram alcoolismo terem sido vítimas disso. É um tipo de tratamento e abordagem diferente. O perfil está mudando, as estratégias de tratamento também devem mudar.

Quais são os sinais de alerta para procurar ajuda?

Eu sempre gosto de começar dizendo que quantidade, frequência e tipo de bebida não são critérios de diagnóstico, mas o teor alcoólico, sim. A quantidade de bebida e a frequência são um alerta para os dados físicos do organismo: haverá mais lesão hepática e dano cardiovascular. O que devemos estar muito atentos é o tipo de relação que a pessoa estabelece com álcool, a sensação de que a pessoa bebe e percebe que exagera, sempre que ela vai beber; se ela consome a mais do que ela havia se programado, e no dia seguinte se arrepende e se sente mal, física e psicologicamente, mas, mesmo assim, ela não consegue parar de beber. Outros efeitos são não lembrar do que fez e se envolver em uma situação de risco, como dirigir sob efeito de álcool. A pessoa começa a ter problemas familiares, a não render tão bem no trabalho ou nos estudos.


Fonte: CORREIRO BRASILIENSE

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